Blog

Postado em 5 de maio de 2020

Os caminhos da Mistagogia

Os caminhos da Mistagogia

 

O Papa Francisco insiste sobre a importância de uma catequese mistagógica: “Outra característica da catequese, que se desenvolveu nas últimas décadas, é a iniciação mistagógica que significa essencialmente duas coisas: a necessária progressividade da experiência formativa na qual intervém toda a comunidade e uma renovada valorização dos sinais litúrgicos da iniciação cristã”. ²

A catequese com estilo catecumenal tem quatro tempos: O Querigma que é o primeiro anúncio; a Catequese propriamente dia; a Purificação e Iluminação, que normalmente acontecem durante a Quaresma e terminam com a celebração dos sacramentos da iniciação cristã; e a Mistagogia que ajuda a entrar no significado profundo destes sacramentos (Batismo – Eucaristia -Crisma)

“Mistagogia é uma palavra grega que significa iniciar nos

mistérios através dos ritos,levando os iniciados a viver o

mistério da Salvação”¹

 Agora, a grande pergunta é como ajudar as pessoas a entrarem no mistério de Deus. Para início de conversa, é bom lembrar que “mistério” não é algo que a gente não pode conhecer, mas algo que nunca se pode conhecer plenamente. Então, como podemos conhecer a Deus?

1º  – Através da criação.

Ela é o primeiro livro de revelação de Deus. Canta São Francisco: “Louvado sejas, meu bom Senhor, pela irmã água e seu valor, preciosa e casta, humilde e boa, se corre, um canto a ti entoa!” Toda a natureza nos fala de Deus se temos olhos abertos para enxergar as maravilhas d’Ele. Olhando o céu estrelado, um ipê florido em plena da seca, uma árvore cheia de caju, um córrego que desce limpinho da serra, uma criança que nasce, tudo isso pode nos levar a contemplar o Criador de todas estas coisas.

2º – Através da experiência do amor.

Quem ama e se sente amado pode pressentir que este amor provém de uma força maior. Muitos místicos experimentaram fortemente este amor de Deus em um momento de sua vida. Charles de Foucauld fala de “um encontro com Deus no deserto”; Teresa de Ávila, de “enamoramento e núpcias da alma com Deus”; João da Cruz, de “travessia da noite escura”; Teresa de Lisieux, de “caminho de perfeição”. O Seguimento de Jesus não precisa de muito conhecimento, mas de muito amor. É através da experiência do amor que se pode experimentar o amor de Deus

3º – Fazer a experiência de Deus através do sofrimento, da cruz.

Não tem discipulado no seguimento de Jesus que não passa pela cruz. “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8,34). “O discipulado é união com Cristo sofredor. Por isso nada há de estranho no sofrimento do cristão, antes é graça, é alegria. Os protocolos dos primeiros mártires da Igreja testemunham que Cristo transfigura o momento extremo do suplício com a certeza indescritível de sua proximidade e comunhão”. ³  Sofrer para e com Cristo é caminho de vida, de ressurreição.

4º – Se encontrar com Deus na vida de comunidade.

Dos primeiros cristãos se dizia: “Vejam como eles se amam!”. Isso suscita uma força muito grande para desejar participar desta comunidade. É nela que Jesus se faz presente. Viver isolado, preocupar-se apenas consigo mesmo não permite uma verdadeira experiência de Deus. É no amor fraterno que Ele se torna presente.

5º – Encontrar Deus no pobre e excluído

O próprio Jesus disse na parábola do juízo final: “Eu estava com fome, e me deste de come; estava com sede, e me destes de beber; eu era forasteiro, e me recebeste em casa; estava nu e me vestistes, doente, e cuidastes de mim; na prisão, e viestes até mim… todas as vezes que fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi amim que o fizeste” (Mt 25,35-36.40). Os pobres nos evangelizam!

Eis aí alguns caminhos para se encontrar com Deus. O profeta Jeremias, que passou por tantas dificuldades, expressa isso da seguinte maneira: “Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir…mas parecia haver no meu coração um fogo devorador, cerrado nos meus ossos” (Jr 20,7-9)

Mística é compromisso! Quando Deus encontrou Moisés no deserto, disse: “Eu vi a humilhação do meu povo no Egito e ouvi seu clamor por causa da dureza dos feitores. Sim, eu conheço seu sofrimento. Desci para livrá-lo da mão dos egípcios e fazê-lo sair dessa terra para uma terra boa e espaçosa…” (Ex 3,7-8).

Mística é uma questão de amor! É arriscar caminhar por caminhos desconhecidos. É apostar no futuro. É descobrir cada vez mais coisas novas. É seguir Jesus como fonte de vida, a exemplo da Samaritana: “Senhor, dá-me dessa água… Aquele que beber da água que eu darei, nunca mais terá sede, mas a água que eu darei se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14-15).

A experiência mística se comunica através de símbolos, de ritos. A linguagem racional não consegue expressar toda a riqueza do vivido, normalmente se expressa com palavras afetivas. Na liturgia precisamos redescobrir toda a riqueza dos símbolos e dos ritos, que têm como finalidade nos aproximar de Deus.

legenda: ¹ Diretório Nacional de Catequese ² Francisco, Papa, Exortação Apóstolica: Evangelli Gaudium, n.166 ³ Bonhoefer, Dietrich, Discipulado, Editora Sinodal 1989, p.46 4 cf. Dom Eugênio Rixen, Pe. Leandro Pagnussat, Borges Maria Augusta, Itinerário da Fé, a experiência da Samaritana e a formação do discípulo missionário, Ed. Vozes, 2019

 

 

Conheça a Coleção Itinerário Catequético da Scala Editora. Com inspiração catecumenal, que promove a vivência dos quatro tempos catecumenais: Querigma, Catequese, Purificação e Iluminação e Mistagogia.

Autor - Dom Eugenio Rixen Bispo da Diocese de Goiás Referencial de catequese no Centro Oeste

Dom Eugenio Rixen Bispo da Diocese de Goiás Referencial de catequese no Centro Oeste

Deixe uma resposta

Dúvidas? Clique aqui. (62) 98119-6817